Saturday, July 2, 2011

Em defesa de um artista

Dedicado a José Luís Outono

Hoje, a minha palavra incandesce.

Recebi uma notícia triste.

Um amigo vai cessar a sua actividade criativa.

Meus senhores, na poesia do século XXI ainda existe um cânone? Será que existe um D-O-G-M-A poético? Será possível que persistam ainda nessa ingenuidade? Avancem, caros senhores, e apontem-me motivos concretos pelos quais conhecer o dáctilo, o espondeu, o troqueu, o jambo e/ou o hexâmetro dactílico qualifica alguém, quem quer que seja, a escrever e/ou a "julgar" Poesia.

Que existem vozes que reúnem mais consensos do que outras, todos sabemos. Mas todos estamos dotados de uma voz - e, por isso, inteiramente livres (penso eu) para fazermos uso dela.

Quando sei de uma luz que se apaga, fico de luto. Nestes momentos, tenho vergonha de ser portuguesa, de pertencer a um povo tão pequenino, cheio de inveja e de intriga, pleno de apupos e de aplausos para com a queda alheia.

Hoje, está na moda não ter opinião: ser cauteloso, prudente, cuidar dos «compromissos» e acordos, cultivar alianças, vigiar o percurso dos outros... sabem que mais? Estou cansada desta gente sem vértebra, sem espinha dorsal, sem Poesia. Porque isto é tudo, meus senhores, menos Poesia. E se tiver de ser a única a erguer a voz perante tão manifesta estupidez, pois que assim seja. Tenho opinião e manifesto-a, pois sou inteira e nua perante as palavras, perante a vida.

Não posso permitir que uma situação destas seja calada. Não posso permitir que mais uma vez grassem as fogueiras da mansa servidão e da ignorância (numa palavra, da barbárie) sem dizer algo em contrário... mesmo que seja só eu a erguer-me contra as chamas, só e pequena contra elas. Não posso compactuar com uma voz que se cala e morre no silêncio. Serei a muralha de vento e de mar contra esse silêncio!

Nada tenho a perder...

A Poesia, caros amigos, não se compadece com invejas, sorrisos subalternos, cobardia. É uma chama, um sacerdócio que nos consome e nos despoja de tudo. O seu sentido é dar de si até não existir mais nada senão o seu fulgor.O resto será reduzido à sua merecida insignificância...

Será sentida a falta da imagética e da musicalidade desta voz que opta pelo silêncio.

Querido Poeta:

no passado dia 19 de Março (de 2011) tive a honra de declamar um poema de Manuel da Fonseca intitulado «Os olhos do poeta» do qual reproduzo um excerto:

O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo,

e as formas e as proporções exactas, mesmo das coisas que os sábios desconhecem.

(...)

Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,

sai uma estrela voando nas trevas,

tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.

E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta

que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no mundo.

Amigo, esperamos o teu regresso.

Cada voz que se cala é um matiz que se perde.

Um dia, acordaremos e a vida estará sem cor.

E o mundo estará tão cinzento que todos nós - sem excepção - teremos há muito desaparecido dentro dele.

Em liberdade,

Sara Timóteo

Sunday, September 20, 2009

A mentalidade da vírgula

A mentalidade da vírgula diz-nos que quando estamos cansados é melhor pararmos de trabalhar para que a nossa obra ganhe com isso.
Esta perspectiva indica-nos também qual o movimento errado numa coreografia com 1200 passos - e, se não soubermos executar aquele movimento exacto, mais vale desistir dos outros 1199 passos e deixá-los para quem sabe dançar melhor do que nós.
Esta fasquia ignora as potencialidades do erro; concentra a sua atenção na parte e descura o todo.
NÃO!

O artista pode reclamar para si o direito ao erro. Por vezes, do erro e do cansaço nascem as obras mais completas. A Humanidade não é apenas o Belo e o Sublime; é necessário que se reconheça esteticamente o direito ao cansaço do esteta e do artista, os ruídos na comunicação entre o que se pretende transmitir e aquilo que efectivamente se transmite. Esses factores são enriquecedores e não detractores da obra.

Não à mentalidade que aponta a vírgula mal colocada num lindíssimo texto de 1500 palavras!

Thursday, September 10, 2009

Mito 2: a inspiração como instrumento de trabalho do artista

Vamos despojar-nos dos pedestais de uma vez por todas.

LIXO. Muito lixo. Suor, trabalho e imenso lixo.

Criar é um trabalho sujo. Escrevemos, treinamos, cantamos, tocamos, esculpimos, pintamos, colamos, representamos, actuamos, fotografamos até à exaustão. Por vezes, após meses ou anos a produzir lixo autêntico, surge-nos como que um clarão e no meio de 1000 trabalhos medíocres (mesmo que os outros os achem bons) surge um que toca a essência da nossa manifestação artística... claro que posteriormente utilizamos a relação entre o lixo produzido e a obra manifestada para medir a genialidade do artista... juízo sempre relativo, sintético, ecléctico e duvidoso.

Artistas e Estetas, amem o erro, o lixo produzido durante o percurso! Pois o processo criativo é apenas um e mesmo os momentos menos bons fazem parte dele e são eles que fazem de nós o que somos na nossa plenitude. Por vezes é o lixo estético que nos sugere novas direcções...

Não se escondam atrás de um pedestal oco de perfeição ou de inspiração que se revela frágil à primeira vista!

E tentem novas coisas fora do vosso domínio principal! Por favor, enriqueçam-se! Eu adoro escrever e não me importo de assumir que sou uma nulidade na fotografia e no desenho. É divertido ser realmente má a fazer algo! Os resultados são cómicos e ensinam-me, despertando a minha sensibilidade para outras linguagens.

LIXO! A base de trabalho de qualquer artista, em prol de uma estética libertária e transparente!

Saturday, August 29, 2009

Mito 1: o artista boémio e indisciplinado

Artistas e Estetas, peço a vossa atenção para um mito que se criou em torno da figura do Artista: o do ser indisciplinado e boémio, muitas vezes incapaz de levar uma vida «normal».

Lutemos contra a discriminação!

Pois hoje e cada vez mais, ser Artista é um privilégio e não uma vergonha!
O Artista é um ser de criatividade extraordinária e a aplicação dessa criatividade ao quotidiano exige uma persistência e disciplina também extraordinárias! Sugiro que façam uma experiência: peguem numa pessoa «normal», «disciplinada», e coloquem-na a pintar, escrever, esculpir, tocar um instrumento, fotografar, filmar, dançar ou representar. Quanto tempo crêem que essa pessoa aguenta antes de desistir?

Mas o que se passa com esta mentalidade de indisciplina?
Muitos artistas de grande talento que conheço têm outros empregos que exercem até conseguirem ter meios para procurar alcançar os seus objectivos... sim, eles movem-se no «mundo real», frequentemente com grande sucesso, pois a Arte DISCIPLINA A MENTE.

Libertem-se da ideia de associar o artista à boémia e à indisciplina! Mesmo que essa vida boémia exista, quando o artista cria não existe mais nada para além do que está a criar. A isso chamo disciplina mental. E vocês?

Em liberdade,

Cynthia