Sunday, September 20, 2009

A mentalidade da vírgula

A mentalidade da vírgula diz-nos que quando estamos cansados é melhor pararmos de trabalhar para que a nossa obra ganhe com isso.
Esta perspectiva indica-nos também qual o movimento errado numa coreografia com 1200 passos - e, se não soubermos executar aquele movimento exacto, mais vale desistir dos outros 1199 passos e deixá-los para quem sabe dançar melhor do que nós.
Esta fasquia ignora as potencialidades do erro; concentra a sua atenção na parte e descura o todo.
NÃO!

O artista pode reclamar para si o direito ao erro. Por vezes, do erro e do cansaço nascem as obras mais completas. A Humanidade não é apenas o Belo e o Sublime; é necessário que se reconheça esteticamente o direito ao cansaço do esteta e do artista, os ruídos na comunicação entre o que se pretende transmitir e aquilo que efectivamente se transmite. Esses factores são enriquecedores e não detractores da obra.

Não à mentalidade que aponta a vírgula mal colocada num lindíssimo texto de 1500 palavras!

Thursday, September 10, 2009

Mito 2: a inspiração como instrumento de trabalho do artista

Vamos despojar-nos dos pedestais de uma vez por todas.

LIXO. Muito lixo. Suor, trabalho e imenso lixo.

Criar é um trabalho sujo. Escrevemos, treinamos, cantamos, tocamos, esculpimos, pintamos, colamos, representamos, actuamos, fotografamos até à exaustão. Por vezes, após meses ou anos a produzir lixo autêntico, surge-nos como que um clarão e no meio de 1000 trabalhos medíocres (mesmo que os outros os achem bons) surge um que toca a essência da nossa manifestação artística... claro que posteriormente utilizamos a relação entre o lixo produzido e a obra manifestada para medir a genialidade do artista... juízo sempre relativo, sintético, ecléctico e duvidoso.

Artistas e Estetas, amem o erro, o lixo produzido durante o percurso! Pois o processo criativo é apenas um e mesmo os momentos menos bons fazem parte dele e são eles que fazem de nós o que somos na nossa plenitude. Por vezes é o lixo estético que nos sugere novas direcções...

Não se escondam atrás de um pedestal oco de perfeição ou de inspiração que se revela frágil à primeira vista!

E tentem novas coisas fora do vosso domínio principal! Por favor, enriqueçam-se! Eu adoro escrever e não me importo de assumir que sou uma nulidade na fotografia e no desenho. É divertido ser realmente má a fazer algo! Os resultados são cómicos e ensinam-me, despertando a minha sensibilidade para outras linguagens.

LIXO! A base de trabalho de qualquer artista, em prol de uma estética libertária e transparente!